Memórias da Ilha Graciosa – 2024

 

 

Atualizado em 07/06/2024

No seguimento da ação "Férias Acessíveis 2024", organizadas pela APEC em parceria com o INATEL entre 10 e 15 de Maio, replicamos aqui dois textos do associado Sr. Agostinho Costa, que servem como memória dos excelentes convívio e iniciativa.

Açores - Natureza bruta a ser graciosa

Após mais de dez horas de viagem, intercaladas por paragens nos diversos aeroportos, pois haviam sido três os aviões que nos transportaram, chegáramos ao nosso final, a Graciosa. Lisboa, Aeroporto Humberto Delgado, Lages; Lages Ponta Delgada, Aeroporto João Paulo II; Ponta Delgada Graciosa.

Ilha Graciosa, que existe a partir de um vulcão há cerca de um milhão de anos. A cerca de vinte e oito mil ela ficou deveras graciosa! Ilha Branca devido ao traquito, uma rocha que cobre os seus montes. E que, segundo Raul Brandão, nas suas Ilhas Desconhecidas, a identificou... Uma de «quatro saindo do mar - a Graciosa dum verde muito tenro acabando dum lado e do outro em penhascos decorativos»!

Em Guadalupe, A Sra. Maria José Quadros, ao nos mostrar a mercearia-museu Tomás Betencourt, foi-nos declamando versos sobre a bela terra. Graciosamente bela, graciosamente graciosa, era a

Graciosa! Ilha branca... aquela que surgira de uma rosa...Fora a fada que sobre o mar salgado deixara cair uma rosa. Rosa que sobre o mar adormecera e sonhara, sonhara. De tal sonho, ao acordar, encontrou-se rochedos, terra, vinhedos, jardins, flores, graciosa... Isto segundo a lenda. E a Sra. ainda nos serviu um saboroso lanchezinho, com diversos tipos de biscoito da Graciosa e um copinho de Angelica, um licor feito a partir do vinho.

Foi-nos concedido o privilégio de visitar a Igreja de Nossa Senhora de Guadalupe, que resultara de uma primeira ermida. Fora erguida a ermida nos finais do século XVI para guardar a imagem de Nossa Senhora de Guadalupe trazida do México por Domingos da Covilhã. Em 1713 iniciava-se a construção da actual igreja. O seu final aconteceu em 1756, pois entretanto, sobrevieram tremores de terra que impediam o avanço da construção.

Apresenta um estilo barroco açoriano, caracterizado pela sua fachada imponente em cantaria negra e pelo interior rico em talha dourada.

Possui um Órgão do século XVIII, construído pelo artista português José Leandros da Cunha. Foi o segundo órgão nos Açores.

Uma imagem de Nossa Senhora de Guadalupe é muito venerada no seu altar. Esta imagem desafia o meu espírito a voar pelos céus, a buscar o infinito, pois toda ela é um desafio de altitude e espiritualidade... vestido num tom de azul, talvez mais rosa velho com tons doirados, todo esvoaçante. Possui uma coroa toda em doirado, assim como um ramo de flores na mão direita. no braço esquerdo guarda o menino, sobre o coração.

Belo momento o da passagem pelo miradouro da Praia da areia Vermelha, do barro vermelho. Encostado ao paredão, uns seis metros sobre o mar, permitia ouvir o som do seu marulhar, bastante suave. Quatro ilhotas de um vermelho bem vivo espraiavam-se pelo azul do mar. O céu, não tão azul, pois eram mais as nuvens, pairava acima, com os pássaros que voavam em chilreio bem alegre. Pássaros, mar, céu nublado, onde de vez em quando o sol conseguia refulgir, todo um ambiente de paz e sossego, de fruição.

Estávamos perante uma baía bem fornecida de peixe, que não podia ser pescado. Era um perfeito refúgio para diversas aves migratórias e residentes, Petrel, cagarra, Garça, garajau rosado, garoupa, sardo, e outros... O peixe existente na baía era todo para seu alimento.

Num outro momento, já pela tarde, fomos visitar o burro anão. Tivemos de percorrer, a pé, cerca de um quilómetro por um caminho de seixos para chegar à quinta. Mas valeu a pena. Fomos recebidos por alguns zurros, de estranheza, por certo pelo grande grupo, mas nada de rejeição.

Burrinhos bem pequenos, menos de um metro de altura. Meias pelagens, a do Inverno estava a cair e a do Verão a chegar. Pelagem parda, russa, com tons de castanho ou preto , parecia-nos de beleza feita a destes adoráveis e pacíficos animais. Mas apetecia tocar nalgum deles. E foi isso que a Sandra, a sua cuidadora nos proporcionou.

Foi, pois, um gosto colocar as mãos sobre a garupa da Natália. O seu olhar, que me observava, transmitia paciência, docilidade, inteligência. Não deixei de lhe colocar o braço sobre o pescoço como num abraço, bem aceite pela já minha amiguinha.

Burrinhos anões, autóctones da ilha, que provavelmente eram originários da Península Ibérica, tendo ido para a Graciosa no início da colonização, nos finais do século XV. Isto nos explicou a Sandra ao nos servir um pequeno lanche. Tive gosto em dar uma pequena oferta em dinheiro para ajuda do trato dos animais, eram vinte e oito, de tal modo repousante havia sido aquele momento.

Mas para este dia ainda estava reservado o maior desafio. Pois íamos lançar-nos à descida do trilho ao longo do vulcão da Caldeirinha. Tarefa relativamente pouco extensa, não chegando aos mil e quinhentos metros. O seu grau de dificuldade residia no tipo de percurso, pois parte dele era feita em estreito carreiro apenas cabendo uma pessoa. E até para maior segurança por vezes agarrávamo-nos ao ombro da pessoa da frente, conseguindo assim maior segurança. E lá se ia fazendo, não sem que um ou dois membros do grupo acabassem por escorregar e cair no trilho. Nada de grave, contudo.

E até que o trilho era deveras agradável. Diversas eram as plantas, arbustos, árvores, em que íamos roçando, urze, tomilho, E os pássaros! O seu gorjeio constante era sinal de um bem simpático e agradável companheirismo. Afinal, chegávamos ao termo da jornada, da primeira parte da jornada. Pois ainda teríamos que fazer o percurso de retorno, este em trilho paralelo. Ah, que bom! Tínhamos água para beber. Da rocha corria um abundante fio do saboroso e desejado líquido, a Fonte da Rocha. Que não deixei de aproveitar. Para o beber tive de me servir das mãos, receber a água em concha, e usufruir de uns goles que logo me reanimaram.

O regresso foi apenas relativamente mais fácil. Pois apesar de o trilho ser mais largo, em alguns pontos subir mais, e devido à relva húmida, os ténis escorregavam pondo em perigo o equilíbrio. Mas, enfim, com a agradável companhia dos passarinhos, lá chegámos ao topo. E prontos para, no dia seguinte, descer à furna do enxofre.

A Furna do Enxofre, localizada na ilha Graciosa, Açores, é uma caverna vulcânica de beleza ímpar. Resultou de vastos movimentos vulcânicos acontecidos a uns bons milhares de anos. Possui um Teto em abóbada perfeita, considerado a maior abóbada vulcânica da Europa. A caverna possui 194 metros de comprimento e 50 metros de altura na sua parte central.

Sentia-me expectante ao iniciar o acesso ao interior da Furna do Enxofre do vulcão da Caldeira, através de uma torre com cerca de 37 metros de altura, equipada com uma escadaria em caracol com 183 degraus. Mas a descida foi mais que pacífica. Sentia-se um leve cheiro a enxofre, nada que incomodasse. E lá estava sob a estranha, altaneira, abóbada. De vez em quando recebia na cabeça, nas costas, uns grossos pingos de água, nada que incomodasse. E foi possível ouvir os respingos resultantes da ainda existência de fumarolas. E também o som em coro da canção açoreana Morte que Mataste Lira, que todos não deixámos de acompanhar, a partir da bonita voz da professora Lizete, a sempre nossa guia. Belo momento, momento cheio de fruição, ali nas entranhas da terra!

Para baixo existia ainda um pequeno lago fechado na cratera. Amarrado na margem um pequeno barco, que apenas servia para algum homem de ciência que viesse fazer trabalho de exploração. Como o haviam feito no século XIX o Príncipe Alberto do Mónaco e os naturalistas Fouqué e Hartung.

Agora, já noutro dia, era o Farol da Ponta da Barca, o mais alto dos Açores. Ah, e o Ilhéu da Baleia! Qual das lendas a mais certa sobre a sua criação: a que falava do gigante Adamastor, o enamorado da Terceira, que percorria o mar a nado para ver a sua amada Berta, a graciosa, da Graciosa? Que em certa noite se perdeu e morreu no mar formando o ilhéu. Diz que ainda se ouvem os seus lamentos de amor pelas noites de luar, chamando por Berta? ou a de uma baleia gigante que encalhou na costa da Graciosa, e que os habitantes confundiram com uma ilha? Cada qual saberá apreciar a que melhor quadra ao seu espírito. Mas, e deveras singular, belo era o ilhéu! E mais belo seria ainda se visto do cimo da torre do farol. Beleza seria avistá-lo, avistar o longe, o longe, o mar mais ou menos azul, até ao horizonte, com um céu ora azul ora acinzentado!

E os dias iam passando... calmos, cheios de interesse, rápidos! Foi um gosto visitar a igreja matriz de Santa Cruz da Graciosa. Bem perto da praça central, o Rossio, a Praça das Araucárias, árvore proveniente da Austrália há uns oitenta anos. Afinal, a Praça Fontes Pereira de Melo, onde não faltava o seu coreto para as diversões, de que as gentes da Graciosa tanto gostavam.

Apreciámos a Torre de São Francisco, o que restava do convento que ali existira. Este fora construído a partir de uma ermida erguida a Nossa Senhora da Ajuda pelo século XVI. Esta fora construída no cimo do monte, Monte de Nossa Senhora da Ajuda, talvez para afugentar os piratas. Também no cimo do monte era visível um vulcão. Mais um em que a Graciosa é rica.

O convento que sobreviera à ermida, fora construído, reconstruído pela última vez no século XVIII. Por fim fora demolido nos finais do século XIX, devido ao abandono dos conventos a que se assistia no país, restando apenas a torre.

Afinal, a igreja matriz de Santa Cruz da Graciosa. Num estilo barroco açoreano, nela o que mais me fascinou foram as pinturas designadas da Arruda dos Vinhos. O Políptico da Matriz de Santa Cruz da Graciosa é um conjunto de seis pinturas a óleo sobre madeira pintadas cerca de 1550 presumivelmente pelo artista português que se designa por Mestre de Arruda dos Vinhos para a Igreja Matriz de Santa Cruz. O estilo das pinturas do Políptico da Matriz de Santa Cruz da Graciosa apresenta forte paralelismo ao das pinturas do Políptico quinhentista de Arruda dos Vinhos sendo pelos historiadores de arte e no estado actual do conhecimento situadas em meados do século XVI e ligadas ao artista anónimo formado na escola de Diogo de Contreiras, conhecido pelo nome de Mestre de Arruda dos Vinhos. A Igreja de Santa Cruz, na Ilha Graciosa, de origem quinhentista mas muito alterada por reconstrução entre 1722 e 1743, conserva assim um dos mais importantes conjuntos de pintura do século XVI existentes no Arquipélago dos Açores.

São as seguintes as pinturas: Caminho do Calvário; Calvário; Deposição de Cristo; Pentecostes; Santa Helena e a Invenção da Cruz e O Imperador Heráclio e a Exaltação da Santa Cruz.

Outra igreja nos coube visitar. A de São Mateus na Vila da Praia. O edifício mais alto da Ilha da Graciosa. Aí foi possível apreciar a talha dourada do altar e os belos adereços. Foi deveras agradável ouvir o seu órgão tocado pelo nosso guia, Fábio Mendes. A composição "Entrada para el Te Deum", de José Elias, que, por uns minutos, me transportou para distâncias e tempos fora da distância e do tempo, onde o espírito a tudo se sobrepôs. E voou, voou...

A nossa guia Lizete ainda nos levou ao Reservatório do Atalho, construído no século XIX para captar a água da chuva. Descemos ao seu interior agora museu. Falou-nos da arquitectura da água. Já que a Graciosa era, sempre foi, escassa em água, foi necessário ter um cuidado especial na sua obtenção e conservação. De tudo isto nos falou. De como existia um reservatório em cada uma das quatro freguesias, de como aágua era transportada em carrocinhas puxadas por cães até aos habitantes. E deu alguma ênfase ao modo como a água caía no reservatório, de modo a que houvesse sempre uma dinâmica de movimento.

Passámos ainda pelas Termas de Moncarapacho. Não me interessei por experimentar a piscina ou alguma das banheiras. Teria preferido tomar um café numa esplanada, a ouvir o mar, que marulhava por ali tão perto. Mas, informaçção mal procurada, só no final da visita soube que ali bem perto existia tal estabelecimento...

E na última noite na bela Ilha da Graciosa, a cereja no topo do bolo. Bem, naqueles dias já tínhamos usufruído de diversos bolos e diversas cerejas! Foi-nos dado o grande prazer de ouvir música e assistir à dança, trazidas até nós pelo Rancho Folclórico de Vila da Praia! O grupo era pequeno, eram apenas cinco os pares que dançavam. E chegou um momento alto, quando cada membro dos cinco pares chegou até um de nós para nos integrar na dança! Foi agradável, foi bonito! Graças à bela e graciosa graciosense pude dançar alguns passos, pairar sobre o movimento físico, levado pela música, pelo movimento, e, porque não dizê-lo, pela agradável companhia...

Foi chegado o dia último. Já era o avião que circulava na pista. Já descolava! Palmas de Adeus à Ilha Graciosa! Ia ficando para trás, terra pequena, vasto mar, imenso céu, por onde agora seguia no voo do aeroplano, no voo do espírito! Adeus Graciosa, até um dia!

Agostinho Fonseca, 25/05/2024

Um dia na Ilha Terceira

O avião acabava de descolar. E ia subindo, subindo.... Não muito, contudo. Acabávamos de sair da Graciosa, a caminho da Terceira. Em pouco tempo, já começávamos a descer. E Terceira à vista! Pensei em António de Meneses, Duque da Terceira, e no rei D. Pedro IV, os responsáveis pela liberdade em Portugal no tempo das lutas fractricidas entre liberais e absolutistas, com Dom Miguel.

Entrámos no autocarro, já com a companhia do Sr. Hiriberto. Seria ele quem nos ia acompanhar durante esse dia. E seguimos até à Serra de Santiago, até ao Miradouro do Facho. Encostado ao paredão, mais uma presença, uma tentativa de comunhão com o esplendoroso mar. Havia algum Sol, pelo que Céu e Mar me iam mostrando as suas mais belas cores, azul para o Céu, meio esverdeado para o Mar. Para além, no horizonte, tudo se confundia. E até me parecia que eram os raios doirados que presidiam ao fulgor que resplandecia.

Era possível observar, a alguma distância, a Vila da Praia da Vitória. E o seu monumento de seis metros de altura ao Imaculado Coração de Maria. Como o meu espírito se sentia atingido por todo este ambiente, de paz, de luminosidade, de eternidade. E a ajudar todo o meu sentir, o voo constante de muitos passarinhos, que se iam revesando para nos acompanhar, para me acompanhar!

E seguimos para a Base das Lages. A Base militar no 4, cuja pista era partilhada entre o tráfego civil e militar.

Fomos recebidos pelo comandante da base. Este, numa breve mas interessante palestra, deu-nos as informações sobre o actual aproveitamento da base. O seu papel era mais o de ser ponto de passagem de aviões militares, sobretudo portugueses e americanos. Pois até é com estes que a base ainda é partilhada. Agora, o mais importante papel desempenhado pelos militares da base é o de salvamento. Estão a-postos a todo o momento para socorrer algum navio em perigo ou outro tipo de necessidade de ajuda. Com uma certa graça, o comandante referiu-nos um salvamento que tiveram que efectuar há algum tempo quando estavam a visualizar um importante jogo de futebol com a nossa equipa e se deliciavam com uns camarões e umas cervejas. óbvio, ficaram os camarões, ficaram as cervejas, e quem ganhou...?

E foi-nos dada a possibilidade de visitar o hangar, e até penetrar o interior de um helicóptero de salvamento, um dos maiores, com capacidade para 35 sobreviventes. Passámos pelos lugares: do piloto, do co-piloto, do manobrador do guincho, das macas, uma ou outra montada, etc. O guincho era, por certo, o equipamento mais importante, pois era através dele que os sobreviventes eram içados para o interior do helicóptero. Acção que era influenciada pelas condições do tempo, do local, se no mar se em terra, montanhas, desfiladeiros. Podiam ser mais adversas, e o guincho, bem como o helicóptero, e obviamente os bravos que exerciam tal mester, era um todo unido a resolver qualquer salvamento!

Para a tarde, após termos saboreado o espadarte pescado nas águas dos Açores, no Restaurante O Baleeiro de Angra do Heroísmo, ainda demos uma breve volta pela praça central da cidade, a Praça Nova. A praça velha ficara para segundo plano, agora era a nova que significava o centro da vida da cidade.

De novo no autocarro, agora já com destino ao aeroporto, íamos ouvindo as palavras explicativas do nosso guia Iriberto. Como a tarde já ia avançada, e tínhamos que nos preparar para rumar a Lisboa, não fora possível subir ao Monte Brasil. Ficaria para uma outra oportunidade...

O nosso guia, tenor de profissão, ia pontuando as suas palavras com trechos de Música. Cantou a Chamateia. Abri a música no telemóvel e fui até ele acompanhando-o. Pouco depois, iniciou a Avé Maria de Schubert. Mas esta, logo a interrompeu.. e tão bonita que era!

Já mais tarde, o avião, um Airbus 320, levava voo, ares fora, com destino a Lisboa. E foram palmas e mais palmas que batemos quando o avião largou o solo. No meu pensamento, que se perdia nos ares, Adeus minhas belas ilhas, adeus Terceira, mal conhecida! Adeus Graciosa, quem sabe, um dia voltarei!

Agostinho Fonseca, 22/05/2024


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